segunda-feira, 21 de abril de 2008

The Road



Leituras metafóricas incluídas, este título não podia ser mais adequado à minha estreia nestas andanças. The Road, último livro de Cormac McCarthy, é daquelas obras que não se esquecem. É uma leitura dolorosa. Um murro no estômago. E, contudo, vale tanto a pena irmos estrada fora com um pai e um filho através de uma América destruída. Sobre o cataclismo que varreu o país não sabemos nada, limitamo-nos a deambular por um cenário onde autênticos mortos-vivos tentam sobreviver (submorrer?). A linguagem é sóbria, o sofrimento (e neste livro é abundante) é descrito de forma seca, precisa, clínica quase. Perante a impotência face às circunstâncias, o que resta a um pai que leva a sua criança pela mão? McCarthy comove-nos sem ser lamecha, agarra-nos a uma história que não existe – as personagens limitam-se a seguir. Sempre. Contra tudo. Apesar de tudo.
A recente adaptação ao cinema de “Este país não é para velhos”, pelos irmãos Coen, atraiu muitos leitores curiosos. Apesar da notoriedade mediática, McCarthy é muito mais do que um autor na moda. Títulos como “The Road” ou “Meridiano de Sangue” atestam bem a solidez da sua genialidade literária. Há já quem o equipare a Faulkner ou Melville… o tempo o dirá. Eu apostava no sim.

sábado, 19 de abril de 2008

The Real Life

Uma comédia romântica com Steve Carell? Uma perspectiva que não augura nada de especialmente positivo. Certo? Bem, não, pelo menos não neste caso. Porque esta é uma quase comédia romântica. E é neste quase que se joga o sucesso do filme. Há humor, mas um humor que, por vezes, chega a ser incómodo. Rimos, mas sentimos que, se calhar, aquilo até não tem assim tanta piada, porque reflecte desespero, desencanto, descontrolo, alguma armagura face a uma vida que teima em escapar ao controlo dos seus protagonistas. Steve Carell faz do seu homem em plena crise de meia-idade, preso à imagem da falecida mulher, às exigências das três filhas e à ilusão de um amor impossível, uma personagem credível, simpática, daquelas que gostamos de gostar. Seguimos o filme por causa dele e torcemos pelo happy ending que sabemos vai acontecer mas, afinal, o que conta é o caminho até lá chegarmos, certo? E Juliette Binoche é uma actriz luminosa, seja em que situação for. Assim, temos um filme que evita os abismos de palermice que uma história destas podia acarretar e até nos esquecemos que tudo aquilo é apresentado sob uma boa camada de açucar e que, talvez, a maioria das personagens não passa de um conjunto de clichés que já vimos muitas vezes... Mas o grupo de actores liga tão bem, faz tudo com tal alegria e gosto que tudo isso é perdoado. Afinal, o realizador, Peter Hedges, sempre é um dramaturgo e as palavras essas, são muito bem tratadas. Em resumo, um bom pequeno filme, aconchegante e terno, excelente para uma tarde de chuva. Os americanos chamam a este tipo de filmes "dramedy", uma mistura de drama com comédia, ou vice-versa, classificação que aqui encaixa perfeitamente. E a vida real é, por vezes, essa mistura de opostos. Já agora, o título português do filme é verdadeiramente inqualificável...

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Feeling Love

Donna Summer escreveu esta letra em cinco minutos.
É apenas a mais perfeita canção pop do mundo.
Foi a primeira vez que o mundo se rendeu ao poder da electrónica, através do uso sistemático dos sintetizadores analógicos de que Giorgio Moroder foi pioneiro.
Mas, para os iniciados, o pecado maior é a versão de 16 minutos produzida por outro dos pioneiros da electrónica, Patrick Cowley. Nesta se exploram todas as dimensões da música, se usa e abusa da criatividade, se criam universos alternativos de absoluto prazer sintético. Ainda hoje não há nada assim. Não é à toa que esta é uma das canções mais tocadas, imitadas, usadas, cobertas do mundo. Conto na minha posse cerca de 20 versões diferentes, e sei que existem muitas mais. Hoje, como em 1977, a marca de uma forma de viver a noite continua tão forte como sempre. O prazer, esse está inteiro.

QUEM SOU EU?


SABEM QUEM É?

quinta-feira, 17 de abril de 2008

88 MINUTES



Jack Gramm ( Al Pacino ) leva uma vida pacata como professor universitário e também como psiquiatra forense para o FBI. É reconhecido também pela condenação de um assassino, Jon Forster, que está a dias de ser executado. É então que Jack começa a receber chamadas com a ameaça de que apenas dispõe de mais 88 minutos de vida. Ao mesmo tempo começam a acontecer assassinatos semelhantes ao do serial killer Jon Forster. É esta a história deste thriller de Jon Avnet, onde Al Pacino brilha do início ao fim. Trata-se de uma luta do bem contra o mal, a razão e a justiça contra a insegurança e o medo. Por isso preparem-se para um filme intenso e repleto de suspense. Bom filme.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Prazer Absoluto.

Há momentos destes, em que nos reconciliamos com o mundo, com as pessoas, com tudo. Momentos inesperados e por isso ainda mais preciosos. Quando é a música que nos dá tudo isto, então o prazer ainda é mais intenso. Então é assim: este disco é (entra o armário dos adjectivos) fabuloso, genial, divino, arrepiante, magnífico, uma obra-prima, um deslumbre, uma tentação, um absurdo de gozo, uma carícia nas partes mais recônditas do ser, um toque de seda na pele, etc, etc, etc, etc, ad infinitum... Chama-se "Songs From The Victorious City", foi editado pela China Records em 1990 e é produzido e interpretado por Anne Dudley e por Jaz Coleman. Ela, a dos Art Of Noise, das cordas de Trevor Horn e dos Pet Shop Boys e de muytos filmes, ele dos Killing Joke e das músicas do mundo. Foi gravado no Cairo que é, aliás, a Cidade Vitoriosa do título, com um grupo de músicos locais. Como já perceberam, aqui trata-se de world music. Sim, mas não fujam, é da boa, daquela que fazem Jah Wobble (Rising Above Bedlam e Take Me To God) e Mychael Danna nos seus momentos de inspiração (os filmes Atom Egoyan, portanto, com Exotica à cabeça). Estamos em território de fusões entre ocidente e oriente, na criação de um mundo híbrido, simultaneamente cinemático e privado, em que se cruzam os olhares de duas formas distintas de ver o mundo. Pode dançar-se num clube em Nova Iorque, num soukh norte-africano ou servir de banda sonora a um qualquer thriller erotico-existencialista com a Sharon Stone, realizado por David Cronenberg numa Budapeste de sonho. Muyto bem, o delírio instala-se. Quanto a mim, estou rendido, foi o boost necessário a uma reencontrada disposição para enfrentar o mundo. Antigo e moderno, velho e novo, ocidente e oriente, electrónica e instrumentos tradicionais, tudo em plena harmonia, para júbilo das nossas pobres almas torturadas por tanta realidade... Exagero? Ouçam e saberão...

domingo, 13 de abril de 2008

Quem conta um conto...


Este "Vantage Point" saiu-me bem melhor do que eu esperava.
Tudo gira à volta de uma tentativa de assassinato do Presidente dos EUA aquando da sua participação numa conferência em Espanha sobre a guerra contra o terrorismo. Situada numa realidade pós 11 de Setembro (a qual começa a ser já um lugar comum nos filmes...) em que o terrorismo é a companhia diária para a hora de jantar, não deixa de ser algo que nos leva a repensar nas loucuras dos dias que correm e no que certas pessoas estão dispostas a fazer por uma causa, quer seja um ideal político e religioso, quer seja a protecção de uma única pessoa até às últimas consequências.
A pièce de résistance de "Vantage Point" não é a sua história banal... é antes a forma como é contada. O atentado é contado do ponto de vista de 6 pessoas diferentes: o da equipa de reportagem que filma a conferência; o do guarda-costas do Presidente; o de um polícia espanhol; o de um turista americano que, sem querer, filma algo que não deve; o do Presidente; e o dos próprios terroristas.
Isto quer dizer somos baleados por sucessivos flashbacks, todos eles trazendo novos dados e mais uma peça do puzzle. Esta é, a meio do filme, a sua maior fraqueza. Ao final do 3º flashback e após mais uma nuvem de fumo ficamos a pensar "hum... isto já evoluia para uma situação nova".
Mas quando finalmente todas as cartas estão em cima da mesa, somos prendados com uma das mais alucinadas perseguições dos últimos tempos pelas estreitas ruas de Salamanca. A velocidade é vertiginosa e os stunts automobilísticos completamente descabidos... mas que importa isso!? Entretém, sem qualquer dúvida e é sempre agradável ver um filme recompor-se quando já temiamos vê-lo a descambar.
No centro de todo este filme situado algures entre o morno e o quente, está um elenco de luxo: Dennis Quaid, Matthew Fox, Forest Whitaker, Sigourney Weaver, William Hurt e Bruce McGill.
O desenlace dá-se graças a um conjunto de circunstâncias e ao acaso, no fundo, o mesmo que cruzou a vida de todas aquelas pessoas.
Apesar de não definir nada, também não envergonha. Gostei. Mas pronto, este é o meu ponto de vista...