quarta-feira, 30 de abril de 2008
Great Expectations
Ser feminista por M.T.H.
A minha tarde de Março (2004) em casa de Maria Teresa Horta* foi dos momentos mais enriquecedores da minha vida. Aprendi muito em poucas horas de convivência. Enquanto homem que sou e, como tal, curioso dos mistérios do sexo oposto, penso ter absorvido a melhor definição sobre o que é ser feminista!
(Maria Teresa Horta) Não sou militante, Zorze, sou feminista! Mas há uma ideia concebida que uma feminista não gosta de homens - é falso! Eu vivo apaixonada por um homem há 40 anos; tenho um filho e dois netos - todos rapazes! Tenho uma vida de casa perfeitamente normal: cozinho todos os dias, passo a ferro, lavo e faço isso tudo. Sou uma pessoa meiga, terna, doce e avó-galinha como lhe digo. Dizem que as mulheres feministas são todas horríveis, feias, amargas e ninguém as ama ou quer ir com elas para a cama. O que é isto? Uma feminista não é uma mulher muito feminina? É mais feminina do que qualquer das outras!
* A afirmação da ser feminina, bem como uma vigorosa sensualidade, ganharam asas nas páginas dos seus livros. Dirigiu o ABC Cine-Clube, fez parte do grupo Poesia 61 e colaborou em inúmeros jornais e revistas. Em 1972, foi julgada por atentado ao pudor quando, em conjunto com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, escreveu Novas Cartas Portuguesas: o hino da libertação sexual das mulheres! Felizmente, a justiça prevaleceu (a custo da pressão internacional, diga-se de passagem!) e as “Três Marias” foram libertadas aquando do 25 de Abril.
terça-feira, 29 de abril de 2008
MENSAGEM

Fernando Pessoa reconhece os feitos do passado mas sublinha a necessidade de um futuro à altura das capacidades dos Portugueses. O que está feito, feito está. O apelo presente na Mensagem é exactamente o apelo à ousadia, mas desta vez espiritual. Vão-se os anéis, ficam os dedos. As riquezas das conquistas não permanecem para sempre. O que irá permanecer será a cultura em forma de Arte. É este o verdadeiro apelo de Pessoa: um “ Às Armas!” substituído por “ Às Artes!”. Talvez por isso a importância do agora. A Mensagem foi a única obra publicada durante a vida de Pessoa. A crença de que os Portugueses têm uma missão é a maior prova do patriotismo Pessoano. A concretização de um Quinto Império seria a derradeira prova de que Portugal é realmente “Nação valente e imortal"!
A tribo na voz
Nascida em Novembro de 1956 na Karasjok Norueguesa, na pequena aldeia de Gamehhisnjarga, Mari Boine cresceu no seio de uma casa conservadora, oprimida pela segregação cristã contra as tradições preservadas a custo pela etnia nativa Sámi, e assim dividida pelo apego a uma família feita sobre pilares extremosamente pios - o pai era cristão Laestadiano fervoroso - e a alegria inata de cantar, dançar e servir de fio condutor às vibrações que animam os habitantes da Finnmark.
Em 1989, pela Real World de Peter Gabriel, lança Gula Gula, um primeiro trabalho com expressão internacional, caracterizado pela fusão entre o jazz e a joik, ritmo primordial da região e cultura Sámi. À data da edição deste álbum, Boine participa activamente em manifestações pró- Sámi, tendo chegado a desafiar a então primeiro-ministro, Gro Harlem Brundtland, a apresentar um pedido de desculpas em nome do Estado Norueguês pelas décadas de repressão e quase eugenia praticadas sobre as minorias que habitam o extremo Norte do país. As suas gravações de 1985, compiladas sob o título Juskatvuoa Manna, nunca chegam a conhecer edição fora da Noruega.
Dali até hoje, com uma dezena de álbuns propelidos ao estatuto de referência inevitável na world music, Boine confere coerência à sua obra fazendo-se suplantar na execução pela companhia de profissionais (Gjermund Silset, Helge Norbakken, Hege Rimestad) que já não podem ser considerados alvo da crítica, e não se atendo à condição cliché de cantora contestatária que jamais exorbita das suas raízes. De facto, Eight Seasons e Idjagiedas são marcos na carreira de Mari Boine em que podem ser ouvidas (em boa verdade, atropelam o ouvinte) incursões por linhas onde a estepe e a tundra se fundem com viagens pela estratosfera de olhos postos em sessões de xamanismo que fazem pensar em Lisa Gerrard à fogueira, possuída por espíritos do ar, com Bill Frisell à guitarra. Aterrador de tão gutural. Geotérmico.
Colaborando com Jan Garbarek, Sergei Starostin, e Anders Porsanen em projectos independentes, eclectiza ainda mais o espectro das influências presentes em Idjagiedas (que pôde apresentar a 16 de Fevereiro de 2008 na Culturgest) e faz-nos crer que haverá ainda muito a construir no denso ar entre a voz e os tambores. Citando-a,
"Não posso representar um povo inteiro. Mas posso contar a minha história como Sami e dessa forma contar parte da história do povo Sami. Nas minhas canções posso descrever a dor da opressão, a luta para ganhar o respeito próprio, mas também a alegria de crescer numa cultura que tem uma ligação tão forte com a natureza”.
A música pode tocar-nos de uma forma insuspeita. Pode oferecer significados, mas pode também criar momentos que não conseguimos definir. A música pode confundir-nos, mas também pode fazer-‑nos sentir felizes, exaltar-nos espiritualmente ou enriquecer-nos."
JOE STRUMMER - THE FUTURE IS UNWRITTEN - Julien Temple

Para não haver dúvidas
Kelley Polar: Chrysanthemum
"I Need You To Hold On While The Sky Is Falling"
Environ, 2008

