terça-feira, 29 de abril de 2008

MENSAGEM


Como o próprio nome indica, a Mensagem é uma obra que pretende comunicar ao leitor. Este nome não terá sido a primeira escolha de Fernando Pessoa, mas sim Portugal. Por sugestão do seu amigo Cunha Dias, Pessoa substituiu o nome para evitar que as suas intenções fossem mal interpretadas e tomadas como propaganda política. Foi na Antiguidade Clássica que encontrou o vocábulo que serviu de nome a esta sua obra poética. Segundo a mitologia, Anquises deu a seu filho Eneias a seguinte explicação para o Universo: “ Mens ag(itatmol) em “ que significa “ O espírito move a massa”. Encontramos aqui escondida a palavra que dá título à obra e que se reveste de dupla simbologia: a mensagem a passar será exactamente a crença de que o espírito humano (particularmente o Português) terá a capacidade de fazer mover o mundo.
Fernando Pessoa reconhece os feitos do passado mas sublinha a necessidade de um futuro à altura das capacidades dos Portugueses. O que está feito, feito está. O apelo presente na Mensagem é exactamente o apelo à ousadia, mas desta vez espiritual. Vão-se os anéis, ficam os dedos. As riquezas das conquistas não permanecem para sempre. O que irá permanecer será a cultura em forma de Arte. É este o verdadeiro apelo de Pessoa: um “ Às Armas!” substituído por “ Às Artes!”. Talvez por isso a importância do agora. A Mensagem foi a única obra publicada durante a vida de Pessoa. A crença de que os Portugueses têm uma missão é a maior prova do patriotismo Pessoano. A concretização de um Quinto Império seria a derradeira prova de que Portugal é realmente “Nação valente e imortal"!

A tribo na voz



Nascida em Novembro de 1956 na Karasjok Norueguesa, na pequena aldeia de Gamehhisnjarga, Mari Boine cresceu no seio de uma casa conservadora, oprimida pela segregação cristã contra as tradições preservadas a custo pela etnia nativa Sámi, e assim dividida pelo apego a uma família feita sobre pilares extremosamente pios - o pai era cristão Laestadiano fervoroso - e a alegria inata de cantar, dançar e servir de fio condutor às vibrações que animam os habitantes da Finnmark.

Em 1989, pela Real World de Peter Gabriel, lança Gula Gula, um primeiro trabalho com expressão internacional, caracterizado pela fusão entre o jazz e a joik, ritmo primordial da região e cultura Sámi. À data da edição deste álbum, Boine participa activamente em manifestações pró- Sámi, tendo chegado a desafiar a então primeiro-ministro, Gro Harlem Brundtland, a apresentar um pedido de desculpas em nome do Estado Norueguês pelas décadas de repressão e quase eugenia praticadas sobre as minorias que habitam o extremo Norte do país. As suas gravações de 1985, compiladas sob o título Juskatvuoa Manna, nunca chegam a conhecer edição fora da Noruega.

Dali até hoje, com uma dezena de álbuns propelidos ao estatuto de referência inevitável na world music, Boine confere coerência à sua obra fazendo-se suplantar na execução pela companhia de profissionais (Gjermund Silset, Helge Norbakken, Hege Rimestad) que já não podem ser considerados alvo da crítica, e não se atendo à condição cliché de cantora contestatária que jamais exorbita das suas raízes. De facto, Eight Seasons e Idjagiedas são marcos na carreira de Mari Boine em que podem ser ouvidas (em boa verdade, atropelam o ouvinte) incursões por linhas onde a estepe e a tundra se fundem com viagens pela estratosfera de olhos postos em sessões de xamanismo que fazem pensar em Lisa Gerrard à fogueira, possuída por espíritos do ar, com Bill Frisell à guitarra. Aterrador de tão gutural. Geotérmico.

Colaborando com Jan Garbarek, Sergei Starostin, e Anders Porsanen em projectos independentes, eclectiza ainda mais o espectro das influências presentes em Idjagiedas (que pôde apresentar a 16 de Fevereiro de 2008 na Culturgest) e faz-nos crer que haverá ainda muito a construir no denso ar entre a voz e os tambores. Citando-a,

"Não posso representar um povo inteiro. Mas posso contar a minha história como Sami e dessa forma contar parte da história do povo Sami. Nas minhas canções posso descrever a dor da opressão, a luta para ganhar o respeito próprio, mas também a alegria de crescer numa cultura que tem uma ligação tão forte com a natureza”.
A música pode tocar-nos de uma forma insuspeita. Pode oferecer significados, mas pode também criar momentos que não conseguimos definir. A música pode confundir-nos, mas também pode fazer-‑nos sentir felizes, exaltar-nos espiritualmente ou enriquecer-nos."

É assim que há sempre alguém que nos remete para a nossa condição primeva de tribo à deriva num planeta ainda e sempre inóspito, condição sobre a qual por vezes nos arrogamos direitos de supremacia nada mais que ilusórios.

JOE STRUMMER - THE FUTURE IS UNWRITTEN - Julien Temple


John Graham Mellor, nascido a 21 Agosto de 1952 em Londres, é para muita gente um ser desconhecido. Mas se dissermos que o seu nome artístico é JOE STRUMMER ,líder dos The Clash então deixa de ser um mistério. Quatro anos após a sua morte, o famoso realizador Julien Temple resolveu filmar um documentário sobre a vida de Strummer. Pegando em vários depoimentos de gente famosa (Flea, Bono, Martin Scorsese, Steve Buscemi, Matt Dillon, John Cusack, Johnny Depp, Jim Jarmusch, Courtney Love e Damien Hirst ) e até mesmo dos fãs de todas as suas bandas (101ers - dos The Clash, Mescaleros), Julien tenta dar a conhecer a pessoa que está por trás desta grande figura do mundo da música . Este doc. vai ser exibido hoje no IndieLisboa no Teatro Maria Matos pelas 21H30.


Para não haver dúvidas

Kelley Polar: Chrysanthemum

"I Need You To Hold On While The Sky Is Falling"

Environ, 2008

segunda-feira, 28 de abril de 2008

No Coração da Noite

O que é a música electrónica? Apenas sons extraídos de máquinas? Batidas mecânicas sem alma, nem calor? Os Kraftwerk, portanto… Pois, nem tanto. Aliás, nada mesmo. De certa forma, o grande desafio posto aos cultores da electrónica foi justamente esse, dar alma às máquinas. O Disco foi instrumental nesse propósito, porque conseguiu que, através dos sintetizadores e do seu ritmo, nascesse esse calor, esse suplemento de alma que foi criador de sensualidade, suor, movimento, luxúria, emoções todas elas muito humanas. Pioneiros como Patrick Cowley, Giorgio Moroder, Paul Parker e Arthur Russell tiveram como trunfo a invenção dessa possibilidade, digamos, orgânica, da música electrónica. Desde esse período fundador, muitos outros trilharam esse caminho, com maior ou menor sucesso, e fizeram da electrónica a moeda corrente da música contemporânea. Para o bem e para o mal. Serve todo este intróito para reforçar uma ideia já aqui expressa em outras ocasiões: a importância do Disco como linguagem fundadora e universal da música electrónica, e como fonte de onde muitos artistas, bem no centro da modernidade, vão beber a inspiração para criarem obras de excepção, absolutamente contemporâneas. Já aqui se falou dos Glass Candy, mas há outros nesta onda: Lindström & Prins Thomas, Chromatics, Hercules And Love Affair, Junior Boys, Sally Shapiro, Unai, Gui Boratto, The Presets… E, naturalmente, a razão para este arrazoado, o americano nascido na Croácia, Kelley Polar, de quem foi recentemente editado o segundo álbum “I Need You To Hold On While The Sky Is Falling”. Polar pega em todos estes pressupostos e cria um universo pop muito particular, bebendo em Arthur Russell, um dos pioneiros, muita da inspiração para a sua música. Tal como Russell, também Polar tem formação musical clássica, neste caso o violoncelo, e esse sentido de proporção, de rigor quase geométrico associado à música clássica é transposto para estas canções. Mais do que provocar um frenesim conducente à loucura nas pistas de dança, o que interessa a Polar é a construção de melodias irrepreensíveis. Estas são canções elegantes e pessoais, contidas, mas tendo como base uma utilização ousada dos recursos típicos do Disco, os arranjos de cordas, os instrumentos clássicos (o violoncelo, et pour cause…), as harmonias, todo um sentido teatral e dramático que faz parte integrante do seu imaginário. Tudo isto envolvido por doces nuances electrónicas, breves pinceladas digitais que enchem de cor e vida uma forma de abordar a vida e a música por vezes tingida de um existencialismo negro e sem esperança, altamente cerebralizado. Tal como nos casos dos Chromatics e dos Glass Candy, não é bem ao paraíso que se pretende chegar, mas ao coração da noite, com tudo o que isso implica, para o bem e para o mal. Este segundo álbum é tudo isto, mas numa forma já mais polida, mais sofisticada, mais consciente. Para ir à raiz, recomenda-se o primeiro álbum de Polar, “Love Songs Of The Hanging Gardens”, de 2005, esse sim uma verdadeira caixinha de surpresas, onde se pode assistir, em assombro, ao revelar de um universo inesperado e cheio de tesouros, estranhos e belos, com contraponto inesperado de violoncelo. A música electrónica é uma coisa mecânica e sem alma? Nem por sombras… Recomendo a audição da faixa 3 de “… The Sky Is Falling”, “Entropy Reigns (In The Celestial City)” onde tudo isto se torna carne e vive.

domingo, 27 de abril de 2008

Quando a Noite Cai (com um grande estrondo...)

Um curioso exercício em como paulatinamente dar cabo de tudo o que de bom um filme pode ter. Basta olhar para o elenco, não é de deixar qualquer um a salivar de antecipação? Um objecto de prestígio, um âncora literária fortíssima (romance de Susan Minot, adaptado por Michael Cunningham...), um realizador estabelecido, enfim, estaria tudo lá. Estaria. Mas não está. Não está porque o filme é um prodígio visual, brilhante de academismo à Inglesa (e eu confesso-me devoto dessa qualidade BBC quase automática que, por vezes, tolhe o cinema inglês...) mas absolutamente vazio de conteúdo, de acção, de interesse. Um regalo para os olhos, à custa de nada se passar, de nada ser permitido para não estragar o embrulho que parece ser a única preocupação de toda a gente, em especial do realizador, Lajos Koltai, um dos mais reputados directores de fotografia actuais, famoso pelos seus trabalhos com Istvan Szabo e Giuseppe Tornatore, mas que aqui se esquece que um filme é mais do que enquadramentos e filtros. Este é um daqueles casos em que o espectador chega a ficar furioso com o que se está a passar no écran, porque rapidamente se entra naquela dimensão do "Oh deuses, se isto fosse feito por...", que é fatal para qualquer filme. E depois, bem, deixamos de querer saber. Glenn Close, Meryl Streep, Vanessa Redgrave e Toni Collette juntas? Who cares? O filme arrasta-se e acaba. Ponto final. O sentido de desperdício é enorme e o objectivo de tudo aquilo é perdido algures numa névoa de casas brancas, mares azuis e mansões imaculadas; num niilismo paralisante, como se Henry James tivesse sido pontapeado nas partes pudendas. E o aborrecimento. Muito. Tivesse vindo James Ivory para pegar na história e estas linhas teriam um outro sentido. Mesmo Ang Lee teria feito algo melhor, ele que faz tudo bem. Assim, o que nos resta é sonhar com o que poderia ter sido...

sábado, 26 de abril de 2008

Burrices...

Não sei se foi pelo cheirinho a Verão dos últimos dias ou pela vontade de que cheguem as férias... mas acabei por dar comigo a ver "Fool's Gold".
I know, I know...
Ok, vamos já pôr os pontos nos ii: é um filme de caca... Mas a sua mais valia (para além do convidativo cenário onde se desenrola) é exactamente não estar com peneiras e estar envolto numa aura de estupidez veraneana que acaba por resultar... sort of. Uma espécie de anúncio da Malibu com duas horas.
Ou seja - e sem desejar alongar-me demasiado nisto - não é para se levar a sério e assume isso à partida. Vale pelas tiradas humorísticas que temperam a aventura, mas também não possui muito mais que isso. A sensação de caça ao tesouro não convence e já começa a chatear ver o Matthew a queimar a imagem neste tipo de filmes.
Por outro lado, há já muito tempo que não via uma personagem tão deliciosamente burra como a moçoila que surge algures a meio do filme (Alexis Dziena a fazer de filha rica, irritante e confrangedoramente oca de Donald Sutherland).
Para quem quiser ver, a recomendação é: ir com baixas expectativas.
It's probably for the best...

PS: Que me perdoem os restantes loungerianos por esta pequena falta.